sábado, 2 de outubro de 2010

Colorindo a vida...


Eu doei medula óssea. E como eu gosto de ser estranha passei mal. Bem legal ficar 3 horas de pernas para o alto até que tua visão volte ao normal e para que tu não saias cambaleando feito uma bêbada. Brincadeiras á parte, é a melhor sensação do mundo.
Não espero aplausos, elogios, nem que me vejam como a Madre Tereza de Calcutá.
Sempre soube que a minha vida só fazia sentido, se eu pudesse ajudar as pessoas. Hoje eu comprovei, é isso que me dá forças pra ir em frente. E a ajuda não tem graus de grandeza, nem lineares nem exponenciais. Cada um pode ajudar da forma que lhe cabe, da forma como a vida lhe permite.
Não há medidas pras coisas boas que fazemos pela vida do outro. Pelos bons ventos que levamos á vida alheia muitas vezes sem nem nos darmos conta.
Cheguei ao Hemosc aqui de Florianópolis bem cedo, e a senhora que me atendeu me perguntou se havia algum problema em a família do receptor me conhecer, pois eles haviam pedido. Sem problema, eu disse.
E aí segue a visão que eu vou carregar comigo até eu morrer de velhice bem caquética:

Me sentei na cadeira pra esperar que fossem buscá-los, e quando a porta abriu, lá vem um menininho, magro, carequinha, vestindo uma bermudona e uma camisa polo como se fosse gente grande, com uma alegria no olho que talvez eu jamais veja novamente na minha vida inteira. Há não ser no dia em que nascerem meus filhos.
Ele veio de bracinho dado com a enfermeira, que me apresentou e ele simplesmente pulou no meu pescoço e me abraçou como se eu fosse o melhor ser humano do mundo (e eu não chego nem um pouco perto disso!). Logo em seguida sentou-se no meu colo, e me deu um desenho.
Abri o desenho e já comecei a chorar feito criança pequena. Uma mulher (eu), um sol bem grande, e as palavras EU TE AMO OBRIGADA em letras descompassadas e mal escritas. Aquelas declarações de criança que não tem forma, conteúdo, mais que são as mais sinceras que se pode ter.
Conversamos durante uns dez minutos, e eu poderia reproduzir cada palavra, cada gesto, tamanha é a repercussão que isso tudo teve dentro de mim.
Me mostrou as marquinhas no braço das injeções da quimio, me contou as histórias das cicatrizes na perna, causadas pela infancia que a doença não vinha conseguindo vencer. Me abraçou umas dez vezes, me beijou o rosto, passou a mão na face várias vezes mexendo nos meus cabelos.
Logo em seguida vieram os pais. Jovens assim como eu, mas com aparência de cansados, o que é absurdamente compreensível, diante da luta do filho.
Me agradeceram, me abraçaram, me disseram palavras que eu vou levar comigo a vida toda.
" Você nao precisava fazer nada disso, não está ganhando nada além de gratidão. Obrigada, te agradecemos, o Pedro te agradecerá a vida inteira pela nova oportunidade de viver, você é um anjo de Deus enviado, não há palavras que descrevam o que você está fazendo pelo nosso filho. Gostaríamos muito que permanecesse na vida dele após isso."

Não me contive e chorei durante quase todo o tempo. CACETA! Era eu, que muitas vezes brigo com a vida pelos motivos mais banais, dando um sentido verdadeiro pra essa minha existencia.
Eu quero isso repetidas vezes. Eu quero não passar em vão esses meus dias que muitas vezes anseiam por um sentido mais abrangente, como se eu definitivamente não pertencesse á realidade que eu vivo.
Eu daria minhas roupas pra quem tem frio num piscar de olhos. Traria gente da rua pra dentro de casa, cuidaria de gente desconhecida, choraria qualquer mazela junto de qualquer pessoa que precisasse de ombro.
Não, tanta intensidade, tanta vontade de ser diferente e de fazer alguma diferença não pode ser em vão.
Deus não pode ter me dado um coração tão grande á toa. Tanta vontade de distribuir, de dividir, de alegrar, de compartilhar, não, não pode ser em vão. Deus não pode ter me dando essa sensibilidade absurda á toa. Eu me comovo com coisas que chegam a ser absurdas. Dia desses estava na casa de um amigo, e na televisão estava passando uma propaganda sobre um programa que passaria entitulado "mitos", e falava sobre um menino elefante. Uma criança totalmente desfigurada de rosto, e quando a camera chega perto dá pra ter a nítida impressão de uma lágrima no olho dele, devo ter chorado uma meia hora. Por culpa de muitas vezes ser tão imbecil ao ponto de ficar magoada comigo mesma por coisas inúteis e sem sentido. Por dar tanto de mim aos que eu amo, e receber boas pedradas em troca.

Ainda não sei ao certo a mudança que essa sensação que eu tive hoje me causou, mas sei que não quero ser igual, não quero passar pela vida sem deixar uma pequena pegada na areia. Eu quero provar todos os dias o gosto de fazer a vida das pessoas mais feliz.

Eu estou aqui, e todo o destino é meu. Não, não vai ser em vão!

Se eu pudesse dar um conselho á vocês eu diria, pintem suas vidas com lápis coloridos todos os dias. Não deixem que o stress do trabalho, da falsidade alheia, do cansaço, do descaso, da falta de fé, deixem as cores da vida de vocês borradas. Porque eu farei o mesmo com a minha a partir de hoje.
Não deixemos que a rotina e a maturidade levem consigo a nossa fé nas mudanças, nossa vontade de ser parte mesmo que pequena dessas mudanças, não deixemos a desilusão causada pelo descaso dos outros cobrirem com cores escuras o desenho da nossa esperança.

Não tenho mais palavras por hoje...e as imagens estão todas aqui, devidamente registradas na minha memória!





5 comentários:

Erica Maria disse...

Gosto mto daqui Flor, adoro seus textos!

Um BJOOO no coração!

olhar disse...

é bom demais podermos ajudar quem quer que seja...
se cada um de nós fizermos um pouquinho...este mundo seria tão melhor...

parabéns menina linda!

beijos,

Bia

Carol Fonseca disse...

Um amigo iluminado me disse uma vez, que todo mundo precisa receber bons sentimentos,e que devemos passar os que temos á frente,mas que cada um tempo de dar e receber,tem gente que hoje só consegue receber,mas que um dia também saberá doar.Eu espero ser assim um dia e tornar os dias dos outros e os meus,bem mais coloridos! beijos,adorei o texto,tô aqui imaginando e chorando,pq sou uma tremenda mateiga!

Renato Orlandi disse...

Que linda, parabéns pelo gesto... Sei como essas coisas marcam e como fazem bem para quem recebe e ajudam a crescer mto a quem doa.... continue com esse espírito e sensibilidade. Te admiro cada dia mais, fiquei emocionado só de ler ^^ bjaoo!

Duanny!. disse...

Ai que lindo.
Quase chorei aqui...
omg.

Deve ter sido incrível, afinal você praticamente deu a vida a ele.
Parabéns, sim.
Foi uma coisa muuito boa, o que você fez.